09 maio 2011

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Indo Embora

Gente, mais uma para o projeto bloinquês, essa é para a 68ª Edição Visual. Basicamente eu tinha que fazer um texto baseado nessa imagem.
Bem, é isso, aproveitem!

-Onde o papai está indo mãe?
-Não sei filho
-E quando ele volta?
-Não volta.

***

Até hoje me lembro claramente da visão do meu pai com seu terninho e a mala de seu violão caindo na estrada. Minha mãe chorava e eu não entendia, afinal ele só estava saindo para trabalhar.
Não é?
Mas ele nunca voltou. E aquela imagem ficou impressa na mente de um jovem com seus sete anos. Até hoje, quando devaneio em palavras ou desenhos, descrevo a cena que nunca me sairá da cabeça. Naquela estrada de terra. aquele terninho chique e a mala do violão.
Pensei tanto nisso que criei um plano: Aos dezoito anos iria pegar um terno igual e uma maleta igual, e seguir pelo mesmo caminho. ia seguir a música como ele seguira e resgatá-lo de seja lá qual era o mundo mágico que o aprisionara.
Mas os anos foram passando, e a realidade, pouco a pouco foi-me sendo esclarecida. Ele não estava procurando a música. Muito menos estava perdido, a não ser que sua prisão tivesse CEP, de onde ele mandava a pensão que bancava meus estudos.
Desisti de procura-lo e deixei que me achasse. Casei, saí daquela casinha no meio do mato que nem asfalto tinha e fui para um arranha-céu, bem longe do chão onde meus pensamentos obscuros rastejavam esperando que eu saísse para trabalhar. Quantas vezes faltei porque a paz era demasiada perfeita no apartamento? Talvez o mesmo número de vezes que eu tinha que sair da claustrofóbica salinha arrumada e encontrar o mundo como ele realmente é: Cheio de pais fugidos ou filhos abandonados, cada um com seu terninho e sua maleta de violão.
Enfim, o motivo pelo qual escrevo isso é minha carta de suicídio. Minha mulher me deixou, e quando saía pela porta vi o mesmo terninho, a mesma maleta e a mesma estrada de terra. Morar lá foi impossível. Hoje estou com o meu terninho, minha mala, e vou guardar cuidadosamente este papel rabiscado aqui, pois minha história é minha bagagem. Vou sumir entre as brumas como meu pai fez, caminhando até o próximo desfiladeiro.
Então, resumindo, adeus.

Lara Vic.

5 comentários:

  1. Mas que coisa linda!
    Ah, adorei!
    Eu demoro um pouco pra aparecer aqui, mas quando apareço, só vejo encantos! Devo admitir que você vai ser concorrência pesada - porque eu vou criar um texto pra competir na Visual, rs. Mas te desejo toda a sorte do mundo, você escreve muito bem, Lara! Um grande beijo!

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  2. lindo texto.
    Existem certas cenas de nossas vidas que ficam eternamente gravadas em nossa memória. Não importa aonde vamos lá estão para nos assombrar;
    Belissimo, parabéns.

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  3. O texto é simples e muito bonito. Leva à reflexão não somente sobre o abandono em si, mas também sobre a inocência da criança que muitas vezes não percebe a tristeza escondida por trás de determinada situação.
    Gostei!

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  4. nossa que historias..
    é triste .. mais gostei do jeito que vc escreveu .. por mais que ja dava p saber pq ele saiu e nao voltou.. fiquei imprecionada com o final q como s ele so entendesse quando aconteceu co ele o mesmo .. ^^

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  5. Oi Lara
    Vi seu comentário acessando meu email; confesso q ando meio "enrolada" e devendo passagens e visitas aos amigos(as)...estou pesquisando um pouco, lendo blogs - às vezes tiro um tempo prá zapear a net à procura de poesias, imagens...sempre encontro preciosidades rsrs

    Tocante esse texto - gostei bastante.

    Bjs, ficarei um pouco mais aq lendo os outros textos e poesias ^^

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