11 julho 2011

5

Ressentimento




A chuva caia impiedosa. Ele conseguia ver Vanessa encostada em um dos pilares da abandonada construção. Assim que ela o viu, seus olhos se encheram de uma fúria que ele já conhecia.
-Se está aqui para pedir perdão mais uma vez, eu voltaria para a chuva - ela disse, as palavras afiadas como uma lâmina.
-Estou apenas me escondendo da chuva, Vanessa. Agradeceria se você me ignorasse.
-Te ignorar? - A voz dela subiu uma oitava - Eu quero que você morra pelo que fez a mim e a minha família! Você nos humilhou,  Carter, e nunca mais queremos ver esta sua expressão arrogante por aqui novamente!
Ele virou o rosto. Aquilo doeu mais que um tapa, que ele saberia que ganharia caso se aproximasse mais.
-Não é só sua família - Disse Carter, falando apenas alto o bastante para que sua voz superasse a chuva. - No momento em que eu aceitei sua irmã em matrimônio, passou a ser minha família também.
Ela se aproximou dele, tendo que levantar o queixo para encarar seus olhos. Sua palavras seguintes foram baixas, porém firmes:
-Minha irmã está morta. - Ela fez uma pausa e deixou as palavras preencherem o ar entre eles  - Sua mulher está morta, e seus filhos reconhecem mais meu irmão como pai deles do que você. Se por algum momento entre a cerimônia de casamento e o desaparecimento dela você pertenceu a nossa família, acabou quando ela deu o último suspiro.
Ele se afastou, sem emoções, quase cínico. Só ele sabia o quanto havia sofrido pela morte de Luciana. Se a chuva continuasse mais um mês, não conseguiria se equiparar ás lágrimas que ele chorou em uma semana.
Finalmente, falou:
-Eu amei minha mulher e amo meus filhos, que como você deve lembrar-se foram afastados de mim pela sua mãe! - ele controlou a voz o máximo que pode – Vanessa, entre todos, eu acreditei que você pudesse me entender, quando eu viajei estes meses e não compareci ao funeral. Saber que ela estaria ali e eu não poderia toca-la, sentir seu cheiro ou ver seu sorriso...Eu viajei não para esquecer, mas para aprender a viver sem. Luciana é inesquecível, e eu nunca superarei sua morte completamente, mas será que podemos nos encontrar ao menos uma vez sem que você me lembre dela?
-Não - Ela saboreou a palavra para magoar o homem que culpava pela morte de sua melhor amiga.
Eles se encararam por um longo silêncio.
-Então não virei mais aqui, e a próxima notícia que terá de mim será minha morte, daqui a muitos anos. Diga aos meus filhos que mandarei uma carruagem, caso queiram viver comigo. Caso contrário, não guardarei mágoa deles.
Ela entendeu a indireta.
-Adeus Carter - disse fazendo uma cópia cômica do que seria uma reverência respeitosa
-Adeus Vanessa - disse ele virando as costas dignamente.
E nunca mais ouviu-se falar daquele homem por estas bandas.


Lara Vic.

5 comentários:

  1. Que conto lindo! Boa sorte no Bloinques *-*

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pelo carinho... Esses contos de amor mexem comigo. Boa sorte no BLQ!

    ResponderExcluir
  3. nossa pude imaginar a cena se desenrolar diante dos meus olhos,
    parabéns gostei muito da forma que vc escreve ^^

    ResponderExcluir
  4. Como eu disse antes, adorei. Realmente, te desejo sorte lá no Bloinques *-*

    ResponderExcluir
  5. Muito intensa sua história! Muita sorte no BLQ.

    Abraços.

    ResponderExcluir