21 maio 2011

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Carta à um Fantasma

 
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Caríssimo fantasma, eu gostaria que parasse de me assombrar.
Todo dia acordo feliz e renovada, para te ver pelos cantos e bufar por ser este mais um novo dia. Francamente, eu não sei como foi sua vida, mas se não está no inferno, porque transformar minha vida nisso?
Afinal, o que tenho eu a ver com você? Não mudei de casa recentemente, nenhum parente morreu, você veio do Além como uma brincadeira de mau gosto?
É, eu sei que menti. Sei bem porque está aqui, mas não quero acreditar.
Uma coisa minha morreu, e nós sabemos que é porque você está aqui. Mas porque me castigar tanto? Eu recebo o que mereço, acredite, não preciso de mais flagelo.
Quase ergui uma lápide, sabia? Por noites e noites me revirei na cama pensando em fazer uma lápide no lugar onde ela morreu, mas acho que uma morte tão trágica e irrecuperável já tem uma lápide no meu coração, e nada é mais necessário que isso.
Não sei onde a enterraram, só sei que a tiraram de mim. Eu garanto, e nisso você pode acreditar. Se fosse para saber onde ela foi enterrada eu iria até lá agora no meio da noite e com minhas próprias unhas cavaria a terra, concreto e qualquer coisa que me separasse dela. É quase impossível viver sem ela. Talvez por isso você esteja aqui.
Não  faça mau juízo de mim. Sei que não é a Morte ou qualquer coisa parecida. Você é algo pior e mais assustador. Posso chamá-lo como está acostumado?
Medo.
Você achou que eu não iria descobrir não é? Mas eu te percebi no dia em que a Coragem morreu. Senti seu peso frio sob meus ombros, e sua presença debaixo da minha cama. Vi sua silhueta dentro de minha sobra, e seu reflexo em meus olhos. Arriscaria dizer  que foi você que, naquela noite chuvosa, a apunhalou pelas costas, mas eu bem sei quem foi, e não vou arrebatar-lhe mais culpa do que já possui.
Aquele dia nunca me escapa da memória. Onde estaria você naquela época? Eu ainda não o conhecia, e o mundo parecia uma maravilha, com minha  companheira sempre sentada no meu ombro direito e esquerdo, sem dar espaço para  incertezas e contratempos. Ah, naquela época o mundo era uma pintura cheia de tons fortes, vermelhos, azuis, amarelos e verdes. Eu me sentia num arco-íris que, ao mesmo tempo em que era particular, era partilhado.
E você chegou com seu cinza, azul-marinho, branco, preto... E eu fui neutralizando... Neutralizando... E hoje sou só isso. Alguém tão solitária que escreve uma carta a um fantasma.
Então, aqui peço que você vá embora. Deixe-me seguir meu rumo sem nenhuma presença, apenas me livre para fazer o que quero. Deixe que eu honre a lembrança da Coragem em minha vida, e tenha certeza que a sua nunca deixará de existir.
Vou deixar essa carta em cima da mesa, para você lê-la atentamente e me dar sua resposta. Quero que saiba que não o desprezo, pois uma coisa que a Coragem me ensinou é que todo contratempo tem algo de bom, e por mais incrível que pareça você me mostrou: há outras formas de viver, algo entre os tons neutros e berrantes.
Eu prometo, aprendi a lição, e agradeço por teri-me-a passado. Desejo toda sorte do mundo no próximo hospedeiro que você encontrar, desde que não vá morar com ele para sempre tudo bem?
Sem mais delongas, me despeço de você, que se tornou um grande amigo.
Uma lágrima como selo e uma assinatura como nome. Atenciosamente, (Lara) Victória

Um comentário:

  1. Que lindo. Você escreve muito bem, parabens.
    http://senhoritaliberdade.blogspot.com/

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