27 fevereiro 2012

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O Começo

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Sangue. Aquele cheiro deliciosamente acobreado enchia as minhas narinas e me fazia sorrir cinicamente. Era sempre uma mistura de emoção e desespero. Uma vida inteira resumida a um líquido rubro. Como era fácil acabar com a vida de alguém. Como era prazeroso.
Eu andava na rua, sentindo falta deste cheiro. A última vez em que eu o sentira faziam poucas semanas, mas para mim eram séculos. Aquela sensação, de quase conseguir enxergar o coração batendo contra as costelas da vítima, era revigorante, quase como uma droga.
Uma droga. Sim, matar pode ser facilmente comparado a uma droga. É excitante, é atordoante, e a sociedade não encara muito bem, apesar de desejar muito em seu imaginário.
Sorri para o espelho, enquanto aplicava um pouco mais de delineador. Ajeitei o decote da blusa, e chequei se a faca que eu havia escondido na minha bota de cano longo estava devidamente afiada.
Perfeito.
Bem, eu nunca fui de imaginar. Eu sempre gostei mais de fazer. E a primeira morte... Bem, não nego que não foi meu melhor trabalho, mas foi o mais... saboroso.
Andei na rua, procurando um taxi e atraindo olhares curiosos. Alvos, muitos alvos, mas moravam perto demais, era perigoso demais...
Eu lembrava muito bem da primeira vida que eu tirei. Eu tinha doze anos... E muitos problemas.
Sentei no banco de trás e falei para que me levasse ao outro lado da cidade, enquanto era engolida lentamente por minhas obscuras lembranças.
Eu conseguia ver como se fosse um filme na minha frente. Eu com cabelos comportados cortados em um chanel que nunca fora de meu gosto, brigando com a minha mãe por mais alguma coisa que minha irmã mais nova havia feito. Eu a odiava, mas todos diziam que isso era normal, que no futuro ela seria minha melhor amiga. Isso só me fazia odiá-la mais.
Lembrei quando ela entrou no recinto. Seus grandes olhos azuis marejados, dizendo que eu estava inventando. Bem, de onde se arruma um contra argumento contra aquilo? E mais uma vez era eu quem estava de castigo.
Caminhei cabisbaixa até o meu quarto, fervendo de ódio. Ela saltitava a minha volta, cantando e puxando meu cabelo. Me segurei, não queria levar mais bronca...
-Onde a senhora está indo? - o taxista interrompeu meu flash black, me deixando um pouco irritada com sua curiosidade.
-Apenas me leve para longe daqui. Meu namorado me traiu. Quero tomar um ar.
Ele deu de ombros e continuou em silêncio, agradeci internamente.
Silêncio... Era assim que eu gostava do meu quarto. Eu fechava as janelas e escrevia sobre coisas obscuras, que meus pais nunca sonhariam. Naqueles papeis eu conseguia escapar um pouco da loucura que me consumia por dentro. Um pouco...
-Renata, o que está escrevendo? - A peste me perguntava, com a voz estourando meus tímpanos
-Nada Alice... Só pensamentos... - falei, sem vontade.
Paguei o táxi e fui para o primeiro bar que vi. Logo chamei a atenção de um jovem no balcão. Ele parecia alegre e de bem com a vida. Não queria afogar as mágoas. Queria curtir. Talvez estivesse com amigos.
Sentei ao seu lado, logo chamando sua atenção:
-Olá - falei
-Oi - falou ele, sobressaltado.
-Esperando alguém?
-Você acabou de chegar.
Ri. Com certeza esse não seria difícil. Mantive uma conversa com ele enquanto olhava distraidamente para a rua. Vi uma menina parecida com Alice.
-Você não tem esse direito! - falei fervendo de ódio. Ela mexera nos meus papeis, de novo.
-Você escreve coisas muito feias. Vou contar pra mamãe! - ela mostrou a língua e saiu correndo com o papel na mão.
Corri atrás e a peguei pelos cabelos. Eu estava fervendo de ódio. Tapei o grito que ia sair de sua boca e ignorei a dor. Arrastei-a até meu quarto. Seu pequeno corpo se debatia, e eu estava fazendo bastante força para segurá-la.
-Quer ir para outro lugar? - A mão dele tocou na minha, e eu voltei para a realidade
-Claro - sorri.
As ruas estavam escuras enquanto andávamos lado a lado. Um beco relativamente limpo se encontrava a minha esquerda, e foi para lá que ele nos direcionou.
Fechei a porta atrás de mim com o pé. Alice estava se cansando, mas minha raiva não diminuía. Anos de raiva estavam vindo a tona agora. 
Ele se aproximou levemente de mim, dando primeiramente um beijo no canto da boca. Sorri e me posicionei atrás dele, alisando seus ombros.
Peguei meu estilete escolar, coloquei a lâmina o máximo para fora. Alice viu se debateu, fazendo-me me cortar. Aquilo só me incentivou.
Ergui a perna esquerda e peguei a faca da bota bem discretamente enquanto lhe sussurrava alguma coisa na orelha. Segurei-a com firmeza.
Virei-a para mim e coloquei o estilete no meio de seu peito.
Sorri quando o cheiro de sangue me atingiu, enquanto seu olhar era de desespero.
Vendo que ela ia gritar, cortei sua garganta. A satisfação fazia minhas mãos tremerem.
Percebi como as duas lembranças se mesclavam deliciosamente. Imaginei Alice caindo de joelhos na minha frente, da mesma forma que Matheus.
Depois de limpar os documentos de Matheus, sai correndo, me permitindo ser totalmente sugada pela lembrança:
O cheiro novo, delicioso, e a sensação de satisfação eram incriveis. Sai correndo de casa, com ela no colo, e abandonei o corpo em algum lugar. Limpei o cheiro de sangue no quarto e fui dormir, tranquila.
Esta é minha história.

Uma semana pra escrever isso. Mas pelo menos minhas amigas gostaram. Não vou mais escrever sobre a Renata, ficou cada vez mais dificil, e acho que agora sabemos tudo sobre ela. Eu tentei reescrever isso um monte de vezes, e só consegui terminar hoje! Enfim, espero que gostem. Vou escrever sobre outras coisas agora, quem sabe um pouco menos de sangue? Enfim, veremos kkkk
Quem ainda não leu os outros dois contos sobre a Renata, são Pequeno Crime e Acerto de ContasComentários?

7 comentários:

  1. muuuito booom ! >< parabéns (:

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  2. Nossa Lara que história, vi-me presa ao longo do enredo, renata é uma mulher complexa, ruim, mas que ao mesmo tempo nos prende em sua narração. Parabéns.

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  3. Eu amei!hahaha sangue *-* A história está ótima ;)

    Beijos
    http://imodelblog.blogspot.com/

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  4. Caramba, deu medo dessa psicopata!

    Muito bem escrito Lara, parabéns.

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  5. O_O
    Meodels, que conto macabro! (Você se daria bem com o meu amigo,Felipe. Ele também escreve coisas do tipo: http://emyhouseplus.wordpress.com/2012/02/22/morte-3x4/). Mas,ficou legal com essa inserção narrativa. Pensamento e fato acontecendo ao mesmo tempo.

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  6. Muito bom. Que pena que não terá mais historias de Renata, esse tipo história me faz querer mais e mais sobre isso. Mais estou muito ansioso para saber se terá mais contos assim.

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  7. Adorei, muito bom mesmo! Adoro essas histórias...
    Beijos

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